terça-feira, 1 de agosto de 2017

O direito de saber

Sempre que as aulas começam, os alunos teem de preencher uma ficha com o seu nome, morada e os respectivos dados dos pais. Tudo corria normalmente e o silencio na sala não existia até ao momento em que uma das nossas colegas foi interrogada pela professora:
- Porque não colocaste o nome do teu pai?
A jovem com um sorriso amarelo disse:
- Porque não sei quem ele é...
O barulho que um minuto atrás era normal, foi substituido por um silencio incomodo e limitamo-nos a olhar uns para os outros com ar de espanto. 
Como é que alguém pode não saber quem é o seu pai? Se não vivesse com ele, se ele tivesse abandonado a mãe (mesmo durante a gravidez), até seria relativamente normal mas não saber quem ele era causou-nos uma estranheza com a qual não sabíamos lidar. Talvez por isso nunca falamos nesse assunto com ela.

Quando o Cristiano Ronaldo comprou uma barriga de aluguer para ter o filho, fiquei triste. Triste não só pelo ato desumano que é pagar para ter uma pessoa mas triste também porque aquela criança nunca vai saber quem é a mãe. E o não saber quem é o progenitor deve ser um trauma para a vida. Imagino o que é olhar para uma mulher na rua e pensar: será aquela a minha mãe? humm... aquela tem o cabelo igual ao meu! Será ela?
O problema do contrato feito para ter um filho, é a exclusão automática da mãe da criança ao acompanhar da sua vida. E não é uma tia, avó, irmã, etc que vão substituir esse papel. Mesmo que a mãe seja a pior das criaturas: uma prostituta, toxicodependente, assassina ou ladra é bom saber quem ela é. É um direito básico de qualquer ser humano saber quem são os seus progenitores mas atualmente o dinheiro fala mais alto e a ética e os valores morais não existem quando um ego é do tamanho do mundo. 
Por isso quando o doutor Gentil Martins disse que: "O Ronaldo é um excelente atleta, tem imenso mérito, mas é um estupor moral, não pode ser exemplo para ninguém. Toda a criança tem direito a ter mãe" concordei com ele. Não vai ser o Ronaldo que vai sofrer quando o filho for para a escola e na hora de dizer o nome da mãe, tudo o que se vai escutar é um enorme silencio. Não vai ser o Ronaldo que vai ser gozado pelos colegas (sim, porque as crianças podem ser muito cruéis) quando as mães dos amiguinhos forem buscá-los à escola e ele, na melhor das hipóteses, vai ter uma tia ou uma avó.

26 comentários:

  1. Finalmente, o posto prometido!
    E os meus parabéns - escreveste passando a tua opinião com base na tua experiência e fazendo uma ligação com que nos identificamos.

    Infelizmente - ou não. Ao mesmo tempo que concordo, também discordo. Os tempos mudaram muito. muito não, bastante. Não foi só a tecnologia... as cassetes de música e os telemóveis com chat ao vivo... Foi também a forma de pensar e a forma de viver e de constituir família.

    Começou na década de 60/70... e agora está mais generalizado.
    Hoje em dia numa escola já devem existir muitas crianças filhas de famílias não tradicionais. No meu tempo existiam as crianças que tinham perdido os pais... em acidentes. E eram criadas pela avó. Ou por um tio, ou por um sobrevivente... Claro que sabiam - ou eu imagino que sabiam - quem os pais eram. Mas que diferença fazia isso no impacto da sua ausência e falta?

    Talvez os filhos da «medicina» até estejam em vantagem: vão crescer já a pensar de forma diferente e por isso a tal estranheza talvez não a sintam nos moldes que a imaginamos. E as crianças filhas de pais do mesmo sexo? Já imaginaste como elas se sentem ao preencher essas fichas de identidade? Nome do pai? Nome da mãe? - Eu riscava o género que estivesse errado e colocaria os nomes de ambos os «pais», corrigindo o género que estivesse mal identificado.

    E penso que vamos evoluir para este tipo de entendimento. Tão depressa e vertiginosamente que vai passar a ser raro a família monoparental, tradicional... aquela onde crescemos e que nos foi incutida como o modelo desejável e ideal.

    O puto do ronaldo nunca vai andar pela rua a tentar saber se aquela é a sua mãe porque, à partida, já vai saber que não será com certeza. Porque foi feito em «laboratório» e só tem «pai», tias e uma avó.

    A «mãe» será uma terminologia interessante mas desconhecida, que vai associar a algo parecido ao amor que recebe dos elementos femininos na sua família. Mas «mãe» que gerou, sentiu crescer e pariu... esse tipo de amor e paixão... Esse não será conhecido.

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    1. PS: Até aparecer uma mulher na vida do ronaldo que vá ser a "mãe". Só então o puto terá contacto com esse conceito, essa figura, essa norma social. E poderá então gostar e sentir falta, caso um dia a mulher deixe de ser a esposa do Ronaldo e, por consequência, a «mãe» emprestada dos seus filhos. A espanhola irá ocupar esse cargo até agora vago para o filho mais velho: mãe.

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    2. O problema é mesmo esse! O amor de mãe ele nunca vai sentir porque o pai, simplesmente negou-lhe esse direito.

      Quanto ao caso das família modernas (com dois pais ou duas mães) não me fazem impressão mas desde que seja dada à criança o direito de conhecer os seus pais biológicos.

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    3. Entendo isso Ana.
      Mas ao mesmo tempo, e quando se trata de mães solteiras? Falando como alguém que sempre se imaginou como uma (não sendo), chegando mesmo a ponderar ser mãe solteira não por acaso, mas por inseminação - isso me tornaria num monstro? Porque estaria a privar uma criança de ter um pai.

      É o único senão. Mas também, existem crianças sem pai porque este faleceu... Ou porque este desaparece. Mas ao menos têm UM, ao qual se pode apontar um dedo. No caso de inseminação artificial, a mãe será também pai. E se um dia arranjar um companheiro, este terá, no meu entender, de aceitar também o filho e desempenhar um papel de pai. Mas na concepção, é uma criança que chega ao mundo sem pai.

      Agora para ser sincera, sou pela igualdade dos géneros mas no que respeita a este tema, ainda continua a ser diferente se for uma mulher ou um homem. Porque o homem chega e pimba! Tem uma criança enquanto anda por aí a viver a vida como sempre. O Ronaldo não teve de ficar no banco para aguentar uma gravidez... Entendes?

      A mulher, mesmo que queira ser mãe solteira, vai querer aguentar a gravidez. Vai ver a sua vida modificada, as suas rotinas. O seu CORPO muda de vez...

      Um homem não. De modo que não posso sentir da mesma maneira um homem que quer ser pai solteiro - porque este vai sempre impor a uma mulher o estado de gravidez e tudo o que traz implicado - e uma mulher mãe solteira.

      Não é bem a mesma coisa, porque a mulher vai GERAR a vida e senti-la a crescer, a desenvolver, está dentro de si. O homem não.

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    4. Claro que não te tornaria num monstro e eu não sou contra uma mulher ser mãe sem ter marido ou namorado porque não é essa a questão. A questão é: contarias à criança como ela foi feita? e o que dirias se ela te pedisse o nome do pai?

      O Ronaldo diz que quando o filho for mais velho, vai contar como ele foi feito. Como se bastasse dizer: olha foste criado em laboratório porque eu quis e não se fala mais nisso. E a criança vai ter de se contentar com essa resposta para todo o sempre.

      Hoje encontrei um site de pessoas que procuram saber quem é o seu pai porque a mãe contou que recorreu a um banco de esperma.

      http://www.searchingformyspermdonorfather.org/

      Como vês, não basta dizer que a criança foi feita em laboratório porque isso não preenche o vazio que é não ter pai.

      Quando uma criança cresce sem pai porque ele morreu ou por que abandonou a mãe ou casou com outra e não quis mais saber daquele filho, ele sempre terá um nome a quem poderá chamar de pai. No caso dessas criações por laboratório, faz parte do contrato manter o anonimato.

      Outra coisa que é muito importante é que vai existir sempre um lado onde não sabe nada em termos genéticos. Não sabe se a família tem alguma doença hereditária ou outra que possa ser tratada a tempo.

      Olha o caso da Angelina Jolie: por ela saber que a mãe morreu de cancro da mama aos 40, ela fez o teste para saber se era portadora daquele gene e pôde tratar-se antes que o cancro chegasse porque as probabilidades dela também ter cancro da mama eram de 85%. Se ela nunca tivesse conhecido a mãe, achas que ela ia lembrar-se de fazer esse teste? Muito provavelmente não e quando descobrisse o cancro já seria tarde.

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  2. Muito bom texto e oportuno!

    Infelizmente o dinheiro paga tudo. Em portugal, obrigam que a mãe/Pai, tenha contacto com os filhos, no caso de estar um em cada lado. Mesmo essa sendo uma "delinquente" ou perigo para a própria criança. Mas pelo menos sabe quem é ela!

    No caso do Ronaldo, não concordo em nada com a atitude dele, de comprar filhos. Enfim, o dinheiro compra tudo.

    Boa noite
    Beijos

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    1. Pois é Cidália! O dinheiro compra tudo menos os valores morais. Esses, ou tem-se ou não.
      Beijos :)

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  3. Não faço a mínima ideia de quantos anos tens (nem estou a perguntar nem quero saber ), mas, a avaliar pelos anos que nos conhecemos 'por aqui', na blogosfera, arrisco-me a dizer que já não és nenhuma menina em época de escola primária (ehehehehe.... é agora que vou levar com um sapato ou uma vassoura), por isso, e só por isso, acho que deves ter conhecimento da existência, e não vão assim muitos anos, dos "filhos ilegítimos", "filhos de pais incógnitos" (sei do que falo)... termos usados na altura e referidos nas respectivas certidões de nascimento, para além do espaço em branco no BI (eu disse espaço, não disse "Despacito eheheheheh).
    Nos tempos (modernos) de hoje, isso já não é possível (dizem) nem existe (dizem também), mas gostaria de saber como é então...
    A brincar a brincar, falamos de coisas sérias, muito sérias, e ás vezes até fico confuso com "estes novos tempos".
    Tudo de bom!
    ;)

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    1. ahahah não vou dar uma vassourada fica descansado, até porque ainda não cheguei aos 40 e só a partir dessa data é que vou esconder a idade (ou não) lol.

      Sempre existiram filhos de pais desconhecidos e ilegítimos mas nunca me tinha calhado conhecer ao vivo algum (até aquele dia). Por isso relacionei o caso com estas modernices que se vê hoje em dia. O caso continua a ser grave e hoje em dia é pior porque pode-se comprar uma pessoa. E comprar uma pessoa remete-nos para os tempos da escravatura, onde o dono fazia o que bem queria com o seu escravo. Não será este um retrocesso grave na civilização?

      Beijos :)

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  4. Olá, não sou defensor da barriga de aluguer mas também não concordo com esse gentil Martins da maneira como opinou sobre o assunto e sobre a homossexualidade, este fulano que já muito tempo lhe caiu a mascara é defensor do estado novo, a fome, ignorância, não acesso à educação, o sofrimento dos filhos das vitimas do regime, assim como os filho incógnitos e muito mais,nunca preocupou a mente retrogrado, tudo que citei atrás, é mais grave do que uma barriga de aluguer, até que, quem utiliza este método, quando praticada, tudo é calculado para o futuro da criança, sou defensor da barriga de substituição o que é diferente, o gentil também é contra, ele também é defensor que o ato sexual só deve existir para procriar, caso contrario não deve de existir, Gentil +Cavaco=Fascismo.
    O texto está perfeito para causar a discussão necessária sobre o assunto.
    Continuação de boa semana,
    AG

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    1. Faltou só uma coisinha que é o seguinte, não sei quando vai acontecer, mas é possível que aconteça um dia, desaparecer as igrejas católicas para dar lugar ás igrejas do dinheiro, esta religião já é a principal neste mundo.

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    2. Olá AG!

      Eu não concordei com o que o médico disse em relação aos homossexuais e por isso prescindi dessa parte da entrevista, até porque o objetivo deste texto era falar só sobre o direito que toda a gente tem em saber quem é o seu progenitor.

      Ainda bem que concordamos em relação às barrigas de aluguer. A ideia era discutir sobre a legitimidade desse ato.

      O ato sexual só para procriar é uma ideia bíblica que não faz sentido hoje em dia. Talvez pela idade avançada do homem, a mentalidade ainda seja retrograda. Coisa estranha para um medico!

      Bom fim de semana :)

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  5. Tempos bicudos e modernos, Ana!
    Conheço esta situação e muito bem, mas não me alongarei nesta seara porque me incomoda.
    Você está coberta de razão e não serei eu a descobri-la (rsrs).
    A sociedade vai se transformando num piscar de olhos, mas também não é hora de saudosismo. Ainda é muito cedo (rsrs)
    Se convém, vamos tocando o bonde nos trilhos que sociedade disponibiliza, mas se não convém escolhemos outro caminho ou outro bonde. E vamos em frente...
    Você está de parabéns por trazer à reflexão tema tão espinhoso... É bom pensar, refletir.
    É claro que, no caso de Ronaldo, é a força do dinheiro que pode quase tudo... Como ele não tem muito tempo para pensar no mal que pode estar fazendo, quando acordar talvez tenha que deixar a criança com um terapeuta...
    Já estava morrendo de saudade dessa Ana, que me faz um bem danado (rsrs)!
    Beijos,

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    1. É bom fazer o bem, José Carlos! Aproveite porque nem todas as Anas são assim! rsrs

      Este tema deve ser particularmente triste para tantas pessoas que não sabem quem são os pais (e há muitos!). Felizmente eu conheço os meus e me sinto feliz por isso.

      No caso do Ronaldo (e outros que fizeram o mesmo que ele), o dinheiro fala mais alto e pouco importa o sentimento dos outros. Culpa de um ego enorme e falta de gente sincera e com valores ao seu redor que diga o que está certo e o errado.
      Beijos

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  6. É bastante estranho, realmente.

    Apesar de ele ter dito que ia contar sempre ao filho quem era a mãe dele, o puto não vai poder dizer na mesma.

    Quanto à minha história, nem sempre as oportunidades desaparecem assim. Continua atenta aos desenvolvimentos.

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    1. O problema é mesmo esse: mesmo que ele diga que o garoto foi feito em laboratório, nunca vai poder dizer quem é a mãe porque o contrato exige anonimato.

      Vou continuar a seguir a história :)

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  7. El tema que planteas es tremendamente razonable. La verdad es que muchísimos niños abandonados por mil motivos diferentes, podrían sentirse enormemente dichosos siendo los hijos de Ronaldo pero es caso de Ronaldo es que quiere que esa criatura tenga sus genes, que sea suya...ese es el problema. Tampoco piensa en las consecuencias que pueda tener para su hijo. Yo no conocía la historia. Esas mujeres, esos vientres de alquiler, también tienen sentimientos y cobrarán un precio pero, es posible, que muchas tengan que cargar con el dolor de la pérdida de ese hijo engendrado en sus entrañas y del rastro que el propio niño deja en la madre.

    Lo que me temo es que ya esto sea imparable. Otra nueva forma de abuso y sufrimiento.

    Saludos muy afectuosos. Franziska

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    1. Hola!

      Franziska, quando um ego é enorme, pouco importa o sentimento dos outros. Existem tantas crianças à espera de uma familia que acho desnecessário comprar uma. Mesmo que ele queira ter um filho jogador de futebol como ele, nada garante que a criança seja tão talentosa como o pai.

      Parece que a moda agora é essa. Criar em laboratório porque depois não é preciso dividir o filho com mais ninguém.

      Saludos!

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  8. os seus filhos não vão conhecer a mãe talvez.Mas viverão em prosperidade.
    Abraço

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  9. Olá, ui...hoje ainda é quinta feira, será cedo para lhe desejar um feliz fim de semana? bem...Assim, desejo-lhe continuação de boa semana e feliz fim de semana.
    AG

    ATT: não me leve a mal ter comentado da maneira como comentei o Centil Martins, tenho todas as razões para não suportar mentalidades fascistas, saudosistas da mocidade portuguesa e do estado novo, em 3 de Agosto de fez 40 anos que o ditador de Santa Comba caiu da cadeira e arrastou-o para o fim da sua vida para felicidade da maioria do povo, só recebeu deste, ignorância e miséria, alguma vez se ouviu da boca destes fascista a lamentar as vitimas que morreram ou que ficaram com um grau de deficiência enorme causado pela guerra colonial ? vitimas que foram combater para defender as grandes empresas como a TAP, CUF e outras, fortunas como o Henrique terreiro, Melos e outros, bem.... não vou alongar-me mais, caso contrario, escrevia durante uma semana, peço desculpa, mas quando eles morrem não se perde nada, foi o caso deste ultimo, chamado de Amorim.
    AG

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    1. Já não vou a tempo de lhe desejar bom fim de semana mas boa semana!

      Não levo a mal o seu comentário e está no seu direito de o fazer. Eu não conheço esse doutor pessoalmente, não tenho a menor ligação com ele e limitei-me a concordar com a parte (não toda, obviamente) da frase que ele referiu. Quanto ao passado dele nada sei, por isso é sempre bom ficar informada.

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  10. Olá, Aninhas!

    Estás bem? Eu estive uns dias no Alentejo, mas continuo de férias ainda.
    Pois, tema polémico e cada um diz o que lhe vem à mona.

    Beijos e bfs.

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    1. Olá, Ceuzinha!

      Por aqui está tudo bem, obrigada.
      Ah as férias continuam! Bom descanso!
      Beijinhos e bom weekend

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  11. Olá, se tiver de ferias? (julgo que sim) receba os meus votos para que sejam as melhores de sempre,
    AG

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